quarta-feira, 27 de março de 2013

THE BEATLES  - 50 ANOS DO ÁLBUM PLEASE PLEASE ME

por Emerson Links, o autor da "Bíblia do Rock".



  Os fãs comemoram, mas quem realmente faz a festa são os músicos sobreviventes, Paul McCartney e Ringo Starr, os representantes das gravadoras e os camelôs pirateiros, que estão faturando horrores com os relançamentos e raridades dos Beatles. Nada contra, é claro. Acho que artistas genuínos merecem colher (enquanto vivos) tudo aquilo que plantaram em sua trajetória. Datas como a de 22 de março de 2013, comemorando décadas de estreia de um disco já se repetiram e sempre se repetirão com outras bandas que festejam seus 10, 20 ou 30 anos de lançamento do primeiro álbum. Mas a diferença termina por aí. Os Beatles, antes de tudo, foram os pioneiros do pop rock dos anos 1960. Apaixonados pelo rock and roll da década anterior, ou seja, os anos 1950, fecundado por Chuck Berry, Buddy Holly, Carl Perkins, Gene Vincent e Elvis Presley, os quatro rapazes de Liverpool, então adolescentes e sonhadores, muito de acordo com suas situações biológicas, protagonizaram a o momento de entressafra na música jovem, quando muitos ícones originais já haviam saído de cena devido a uma espécie de machartismo anti-rock. A partir do início dos anos 1960, mesmo no circuito underground de Hamburgo, os Beatles renovaram a a cena e logo atrás deles (ou simultaneamente) emergiram o The Rolling Stones, The Yardbirds (praticamente a gênese do Led Zeppelin), The Animals e outros igualmente cotados. O ano de 1963 tiraria do ar, em questão de meses, o modismo do twist para colocar na roda um rock influenciado pelo blues, pelo soul, pelo rock instrumental e pela country music. Bastaram algumas semanas para Chubby Checker ser engolido pelos Beach Boys que consequentemente foram ofuscados pelos Beatles nas paradas americanas. E depois disso o mundo jamais seria o mesmo. Cabe lembrar que os próprios Beatles, que se revelariam altamente originais se transformariam num modismo com a chegada da beatlemania na América no começo de 1964. Enquanto isso algumas bandas da mídia eram puramente composta por celebridades, porém, nada atrapalhou o quarteto de Liverpool que, de longe, era o mais autêntico que já se teve notícia.
  Recuando para 11 de fevereiro de 1963, pouco antes do lançamento de Please Please Me, em 22 de março do mesmo ano, John Lennon e Paul McCartney, enclausurados dentro do estúdio Abbey Road, em Londres, buscavam inspiração no passadopara fazer a música do futuro. Sabe-se que Please Please Me, que trouxe oito canções escritas por Lennon e McCartney e releituras de outros compositores, teve como ponto de partida os vocais ao estilo Roy Orbison, um dos raros pioneiros da época que havia sobrevivido à crise do rock no final dos anos 1950. John Lennon admirava muito a sensibilidade e melodia poética de Orbison. Mas não era só isso, não. A guitarra de George Harrison fortemente influenciada por Carl Perkins  conduziu quase todas as faixas do disco a um exercício de vitalidade juvenil. Mesmo na emotivamente solitária "A Taste of Honey" existem ecos da fatia instrumental country de Perkins e do lamento saudável de Orbison. Em "Boys" o que ouvimos é uma pequena variação dos vocais de Little Richard, mas sem os músicos abrirem mão da folia frenética na essência do arranjo proposto. Em seu turno, a seminal "Love Me Do" entregava tudo aquilo que os Beatles haviam aprendido ouvindo o repertório de Buddy Holly (singles avulsos menos conhecidos do público em geral) onde John Lennon buscou uma de suas maiores influências). A ideia de adicionar o solo de gaita em "Love Me Do" remetia aos primeiros heróis de selos obscuros da cena rockabilly, selos que fariam a Sun Records soar como uma gravadora major. Sim, na época, os Beatles não camuflavam a ideia de reverenciar seus ídolos em cada canção que gravavam. Mesmo nas canções que falavam de amor (que nada mais eram que o retrato das dores adolescentes e seus amores impossíveis), os Beatles trafegando pelo quase extinto formato doo wop, ainda demonstravam que eram "únicos" em matéria de reciclar qualquer gênero, inclusive os que estavam em decadência. Em 1963, as bandas, os trios e os quartetos de música pop adolescente que ocupavam a cena destronando a maioria dos grupos de doo wop, enfrentaram um páreo duro com a chegada dos astros da gravadora Motown. A sobrevivência dos ídolos fabricados dentro de estúdio se agravou com a ascensão do funk liderada por James Brown e do folk via Bob Dylan, que desde 1961, ocupavam os seus respectivos espaços no showbusiness.  Mais que isso. Esses dois nomes e os demais citados fizeram tudo parecer ultrapassado em curto prazo. 1963 foi um ano em que ídolos domesticados como Brian Hylland, Frankie Avalon, Tommy Sands e Fabian, sentiram pela primeira vez que rostinhos bonitos e cabelinhos bem aparados não eram o suficiente para manter-se em evidência. Elvis Presley era a única exceção, que mesmo sendo um pioneiro do rock and roll já tinha retornado do serviço militar como um cantor de baladas para toda a família ouvir no sofá da sala. Presley tinha deixado de ser um perigo aos hábitos e bons costumes americanos. Com os Beatles a caminho do sucesso nada parecia ser sinônimo de garantia de sobrevivência. The Ronettes (responsáveis pelo hit "Be My Baby") e outras crias do produtor Phill Spector já começavam a sentir o peso da ameaça britânica. Os Beatles só estavam aguardando ocupar o 1º lugar das paradas americanas para realizarem uma turnê de estreia nos Estados Unidos. A revolução não seria feita com o primeiro álbum Please Please Me, mas sem esse passaporte musical, Brian Epstein, o empresário, teria prolongado sua jornada para implantar a beatlemania em todo o planeta. Foi necessário aguardar o lançamento do segundo álbum, With Beatles, para rechear as rádios com mais canções repletas de vigor juvenil. Lançado em 22 de novembro de 1963, o mesmo dia em que o presidente Kennedy foi brutalmente assassinado em Dallas, EUA, o disco se tornou um dos refúgios para os adolescentes traumatizados com o episódio. O bom humor dos jovens ingleses se converteu em uma boa terapia que os Beatles fizeram sem tal pretensão ao desembarcar no dia 7 de fevereiro de 1964, no aeroporto J. F. Kennedy, em Nova York. Cerca de 3 mil pessoas presentes no aeroporto representaram parte do frenesi que estava por vir. Em sua primeira turnê pelo país, os Beatles já tinham como vantagem a venda de 1, 5 milhão de cópias do compacto "I Want To Hold Your Hand" nos Estados Unidos e logo estouraram num programa de TV de grande audiência na América, o Ed Sullivan Show. E foi assim que os Beatles iniciaram o seu monopólio nas paradas de sucesso dos programas de rádio de todo o globo terrestre, exceto no mundo islâmico.
  O que ainda vale reforçar é que, para os padrões da época, houve bastante inovação nas faixas gravadas para o álbum Please Please Me, lançado pela Parlophone /  EMI - Odeon. A energia apresentada no disco ia além daquilo que as bandas propunham em tal momento. Mesmo com algumas regravações do universo pop black and white tudo soava como "novo", como estivesse saindo pela primeira vez em disco. Não foi por menos que a futura revista Rolling Stone incluiria "I Saw Here Standing There" e "Please Please Me" na lista das 500 melhores músicas de todos os tempos. Entre tantos atrativos e talentos genuínos, pra não falar do visual moderno de cabelos levemente compridos e penteados para frente, os Beatles tiveram a sorte de contar com o genial George Martin. A única falha cometida por este engenhoso produtor foi não ter apostado de primeira no baterista Ringo Starr, nas primeiras sessões de gravações em estúdio. Superado o equívoco, George Martin devia ser lembrado sempre como o quinto beatle (muitas vezes tal título é creditado a Stuart Sutcliffe, artista plástico e péssimo baixista amigo de John Lennon, que faleceu em 10 de abril de 1962; e Brian Epstein, o empresário e gerente da banda). A beatlemania rompeu com todas as fronteiras do ceticismo empresarial. Astros da moda que vieram depois caíram no merecido esquecimento por falta de originalidade e como sabemos - só por essa razão - o fenômeno The Beatles sobreviverá a todos nós. Paul McCartney, o sobrevivente mais bem sucedido, ainda lota estádios com shows monumentais, inclusive, depois de velho, aceitou fazer show no Brasil. Independente do descaso dos grandes astros para com os fãs dos países latinos (que sempre se mantiveram fiéis até a morte), produtores começam a abrir seus olhos (e seus bolsos) para faturar mais com a globalização. Apesar dos pesares pesando... Beatles forever!!!

   

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