sexta-feira, 29 de março de 2013

CELLY CAMPELLO, A PRIMEIRA RAINHA DO ROCK BRASILEIRO, COMPLETA UMA DÉCADA DE AUSÊNCIA NO PLANO TERRESTRE

por Emerson Links, o autor da "Bíblia do Rock".



  Para quem acredita em vida após a morte, fica a esperança de algum dia rever seu artista preferido no mundo espiritual - nem que seja de alguma plateia - ciente de que o eterno seja possível. Por outro, os ateus acumulam dores maiores ao saber que jamais poderão apreciar de perto astros e estrelas que enchiam seus corações de alegria. Quem viveu o início do rock no Brasil, na segunda metade dos anos 1950, muito tempo antes da jovem guarda e da explosão do rock comercial dos anos 1980, não pode ter ideia do que foi o fenômeno Celly Campello. Quem ouve a música da cantora pela primeira vez pensa logo que se trata de uma versão antiga de Sandy (da extinta dupla pop Sandy e Júnior), mas se você tem um avô por perto ou um jovem conhecedor do velho rock (hoje em dia muito comum nos circuitos de rockabilly de São Paulo) descobrirá que Celly Campello surgiu na época do nascimento de um novo ritmo, o rock and roll, que seria por muitas décadas uma referência para os jovens de bom gosto. O que se escuta hoje é um música brega, tecnicamente mal feita, pobre em mensagens sentimentais e sem poesia. O rock and roll dos anos 50 cumpria esse vazio existente hoje na música. Celly reinou soberana durante sua curta carreira, muita antes de Rita Lee ou Pitty entrarem em cena.
  Eram tempos inocentes, anos-luz da distância da violência e inversão de valores que vivemos hoje no Brasil, onde o bandido vira o herói da mídia e o mocinho é reconhecido como um babaca (os jornais e noticiários de TV adoram explorar esse filão). Não se trata de um discurso moralista, mas a história da humanidade sempre enfrenta esses avanços e retrocessos, de tempos em tempos. Célia Benelli Campello nasceu na capital paulista, em 18 de junho de 1942, durante a Segunda Guerra Mundial, mas longe do conflito. O Brasil entrou na guerra, mas nenhuma nação, com exceção dos Estados Unidos faturou tanto com isso. Os alemães e japoneses foram derrotados e os demais países tiveram que se reerguer dos escombros. No caso dos Estados Unidos, o fim da guerra deixou um vazio na família americana e esse vazio se refletiu nos jovens que eram tratados de forma submissa. Da infância você pulava direto para a fase adulta sem viver uma adolescência digna de transgressão saudável. O rock and roll foi o grito de guerra que mudou essa situação na década de 1950, mais precisamente com surgimento de Bill Haley e seus Cometas. Como não havia TV, a juventude descobriu o grupo assistindo a dois filmes que entraram em cartaz nos cinemas, "Sementes da Violência" (1955) e "Ao Balanço das Horas" (1956), nesse meio tempo dois atores se transformaram em ícones rebeldes, Marlon Brando e James Dean, respectivamente trabalharam nos filmes "O Selvagem" e "Juventude Transviada" (1955), sendo que logo em seguida Chuck Berry apareceria em meia dúzia deles, em destaque, "Rock, Rock, Rock" (1957) e "Jamboree" (idem). No Brasil, o grupo Betinho e seu Conjunto gravou uma composição original, "Enrolando o Rock" e com esta foi convidado a fazer um número musical no filme "Absolutamente Certo", dirigido por Anselmo Duarte. Ainda em 1957, Cauby Peixoto também gravou um rock original composto por Miguel Gustavo batizado de "Rock and Roll em Copacabana". Tanto sua canção como a de Betinho disputaram décadas depois o título de "primeiro rock brasileiro de composição original". Contudo, tanto Betinho quanto Cauby estavam longe de representar os adolescentes nos quais todo mundo poderia se espelhar, pois já eram adultos e trabalhavam diversos ritmos. Depois surgiu Carlos Gonzaga, um cantor de guarânias e boleros, que estourou com "Diana" em 1958, mas este secretamente era um trintão. Nesse meio tempo, Tony Campello, irmão de Celly, que também tinha nascido em São Paulo e tinha ido morar em Taubaté, experimantava-se como cantor de rock no conjunto Ritmos OK, desde 1955, segundo ele próprio. Depois que arranjou um emprego na capital paulista, Tony fez amizade com Mário Gennari Filho e entre outros contatos que o levaram para dentro da gravadora Odeon que pretendia lançar jovens que soubessem cantar rock and roll em 1958. Tony Campello assinou um contrato para gravar um compacto de 78 rotações. Estavam previstas duas músicas, uma para cada lado do disco. Tony gravou "Forgive Me" (o lado B do disco) e sua irmã, que ainda se chamava Célia e nessa ocasião, substituindo Celeste Novaes, assumiu o nome artístico de Celly Campello e os vocais de "Handsome Boy" (o lado B). Duas canções originais brasileiras, mas que foram vertidas para o inglês para chamar a atenção da então juventude colonizada pelo rock and roll. O compacto com as duas canções de Tony e Celly Campello não faturou o esperado, mas finalmente ambos se tornaram os ídolos jovens que as gravadoras tanto buscavam e nunca encontravam. Rapidamente, Celly gravou sozinha seu compacto de estreia com duas duas faixas, "Devotion" e "O Céu Mudou de Cor", também pela Odeon. De uma vez, por todas passou a existir cantores jovens de rock and roll cantando para uma plateia adolescente. No showbusiness internacional era um mercado em expansão e nenhum empresário seria tão louco assim de ignorar, nem mesmo no país do samba.
  Meses se passaram com o rock and roll fervendo nos Estados Unidos com o Rei do Rock Elvis Presley, Gene Vincent, Jerry Lee Lewis e grandes feras que não caberiam nessa página. Enquanto isso, no Brasil, antes de 1958, terminar, Celly Campello estreou na televisão no programa Campeões do Disco, da TV Tupi. No ano seguinte, ganhou seu próprio programa de TV feito para a juventude, que levou o nome de "Crush em Hi-Fi". Ao lado de Tony Campello, comandou tal programa por dois anos, obtendo um sucesso regional. Na época não havia transmissão para todo o Brasil e nada (ou quase nada) era gravado em video-tape para ser exibido em outro Estado do país. Muita coisa boa se perdeu com isso. É por essas e boas que não se tem registro da primeiras apresentações de Sérgio Murilo na TV, outro colega de geração dos irmãos Campello, que fez sucesso logo em seguida no filme "Alegria de Viver" (1958) e com o rock "Broto Legal" (1960). Sérgio Murilo também ganhou seu programa de TV ao lado de Sônia Delfino, uma estrela da gravadora Philips que não conseguiu concorrer com Celly Campello nas rádios como se imaginava. Na qualidade de cineasta, mais uma vez eu lamento, aqui, pela ausência desses programas de TV, que poucas vezes eram gravados em video-tape e que pouca coisa sobrou mesmo e ninguém tem o paradeiro disso. Tão pouco saberemos, também, como eram as performances de George Freedman, Wilson Miranda, Demétrius e Ronnie Cord. Esse tipo de coisa na Europa e nos Estados Unidos dificilmente acontecia. Sempre houve um sentimento de preservar os acervos audio-visuais. Já no Brasil...
  O momento de virada na carreira de Celly Campello foi quando Chacrinha se interessou em tocar sua versão para "Stupi Cupid", um sucesso de Neil Sedaka, que em português ficou "Estupido Cupido" e acabou fazendo um sucesso estrondoso por todo o Brasil em 1959. Nesse mesmo ano, participou de um número musical no longa-metragem "Jeca Tatu", estrelado por Mazzaropi. Celly Campello acompanhada do irmão Tony ficou conhecida do grande público se conseguia escutá-lo através do rádio. Outro sucessos vieram tais como: "Lacinho Cor-de-Rosa", "Túnel do Amor", "Billy" e finalmente "Banho de Lua", que a consagrou definitivamente em 1960, ano que também apareceu em outro filme de Mazzaropi, "Zé do Periquito", em companhia de Tony Campello, George Freedman e outros ídolos da juventude da época.   
  Celly Campello era tão carismática que chegou a arrancar elogios de Tom Jobim, um dos maiores compositores da MPB e um dos fundadores da bossa nova. Era fácil gostar dela. Celly tinha todas as qualidades que os rapazes desejavam ver em suas namoradas e as meninas se espelhavam nela. Durante uma eleição promovida pela revista do rock, os leitores elegeram Celly Campello como "a rainha do rock brasileiro", ao lado de Sérgio Murilo eleito "o rei". Na curta carreira de cantora, antes de casar com um contador da Petrobrás em 1962, fez propaganda do achocolatado Toddy, ganhou uma boneca com o seu nome e decididamente era "a namoradinha do Brasil". Por muito pouco teria comandando o programa Jovem Guarda ao lado de Roberto Carlos e Erasmo, mas o marido a proibiu. Anos depois, argumentou-se que a cantora teria pedido uma quantia altamente exorbitante, porém nenhum desses fatos foi comprovado. Em seu lugar, entrou Wanderléa.
  Sentindo falta dos palcos, tentou dois regressos, mas somente em disco. O primeiro foi no compacto "Marquei Um Encontro com Você", lançado em 1968. O segundo aconteceu durante 1976, quando dois de seus maiores sucessos intergravam a trilha sonora da novela, "Estupido Cupido", de Mário Prata. No capítulo em que Celly Campello aparece cantando na fictícia cidade Albuquerque, a Rede Globo ficou com 100% de audiência. Algo jamais visto antes.   
  Com uma vida reclusa em Campinas, vivendo como uma simples mortal, Celly acompanhou de longe toda a evolução do rock brasileiro sempre com um gostinho de saudades. Seus depoimentos ficaram registrados no documentário "Ritmo Alucinante". Uma década depois seria ignorada durante a escalação de atrações do Rock in Rio tal qual Sérgio Murilo. Este chegou a se desabafar numa entrevista para a revista de publicação nacional. O público era outro. Celly Campello e Sérgio Murilo foram considerados cantores retrô demais para o público de metaleiros que estaria presentes. Não por coincidência, Erasmo Carlos foi vaiado pela plateia ignorante de uma das noites do evento.
  Como todos os fãs do velho rock and roll sabem, Celly Campello partiu de nosso plano em 3 de março de 2003 no Hospital Samaritano em Campinas, vítima de câncer. Já havia sido curada antes, mas a doença foi implacável voltando com toda a força até o desfecho final. Assim como outros artistas do rock e da MPB, Celly é insubstituível. Não era uma compositora formadora de opinião, mas na qualidade de intérprete marcou toda uma geração de jovens. De consolo, sua carreira terá duas chances de ser reverenciada: no longa-metragem "Bíblia do Rock" e no documentário "Celly e Tony Campello - Os Brotos Legais", de Dimas Oliveira Junior e José Inácio da Silva. Se viva estivesse, Celly Campello alcançaria 71 anos de idade no próximo mês de junho e seria considerada uma lenda viva do rock brasileiro, tal como seus colegas de geração como Carlos Gonzaga, Demétrius, Eduardo Araújo, Sônia Delfino, Cleide Alves, George Freedman e, obviamente, Tony Campello.




  



3 comentários:

  1. Parabéns amigo Emerson Links! Que matéria esplêndida essa! E é assim como todas as outras que tive o prazer de acompanhar e comentar. Você é mesmo brilhante meu rapaz e torço pelo seu sucesso.
    Amei a forma com a qual usou para descrever a Meiga Namoradinha do Brasil, Celly Campello, que coincidentemente faz aniversário de morte hoje. Paira até uma tristeza no ar ao ver uma matéria tão bem elaborada, e pensar que ela trouxe de volta à memoria o Monstro Celly Campello. Disse paira uma tristeza porque alguns cantores de hoje, que nada cantam, consegue nos sufocar e com isso deletar nossa memória. Ainda bem que tenho um amigo cineasta e escritor que divide comigo esse momento maravilhoso de cultura. Sucesso, muito sucesso, Obrigada e beijinhos!

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    1. Muito obrigado, Maria. Tais palavras foram um prazer que vivenciei em nome do bom gosto.

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  2. Já foi dito tudo!! vc é íncrivel mesmo, te ter como amigo é uma benção!!! adorei a matéria, não podia deixar de apreciar estes momentos tão lindos da nossa história, detalhados por vc, com muito esmero, só tenho á agradeçesr á Deus por vc ter cruzado meu caminho, obrigada!!!

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