sábado, 30 de novembro de 2013

SERGUEI, O ROQUEIRO MAIS VELHO DO BRASIL, PASSA DOS 80

Texto: Emerson Links.


   Na visão dos roqueiros analfabetos, ele foi apenas o "namorado" de Janis Joplin. Para quem estudou o mínimo de história sabe que Serguei é mais que um lendário personagem do rock brasileiro. A partir de meados dos anos 1960, ele foi o primeiro intérprete com visual hippie a se apresentar em público, gravando com bandas, que muitas vezes, seguiam o rumo oposto a jovem guarda. Sua foto estava sempre estampada nas principais revistas de comportamento da época, tais como Manchete e Intervalo. Serguei também gravou os melhores compactos do rock psicodélico brasileiro (a melhor parte foi produzida por um inacreditável Nelson Motta). Entre seus principais admiradores estão os não menos ilustres Edu K. (DeFalla), Luiz Calanca (proprietário do selo Baratos Afins, o mais respeitado do país), Plato Divorak (o gênio do underground brasileiro, também lançado em disco pela Baratos Afins) e, finalmente, Carlos Loffler, ator e cantor, neto de Oscarito, que após trabalhar em filmes de cinema e novelas de TV, reivindica um lugar ao sol na árvore genealógica do rock brasileiro. Não só isso. Loffler, que ainda soa como o Marcelo Nova de Serguei, (alguém lembra quando Raul Seixas, quase esquecido pela mídia, precisava de um gás novo para subir aos palcos nos anos 1980) se preocupa permanentemente em convidar o decano para participações em shows seus, parte do pacote se originou do musical de teatro, "Isto Aqui é Rock'n Roll". Em tal espetáculo, Carlos Loffler vive C. Q. Lee, que lembra muito o próprio Serguei, numa trajetória que beira entre o quixotesco e o sublime, sem dúvida de uma carreira musical sem igual. Ele próprio tem declarado através da rede social facebook sua condição de herdeiro do "anjo maldito" (subtítulo do livro autobiográfico de Serguei). Se isso for bom o público irá dizer.
   Completar 80 anos de vida num grupo de risco chamado "rock", onde 5 entre 10 artistas remanescentes entram em depressão e tiram a própria vida com auxílio de bebidas alcoólicas e drogas químicas nocivas, é, de fato, um verdadeiro milagre. Muitos não chegam aos 30 (Janis Joplin, Jim Morrison, Brian Jones) outros não chegam aos 40 (Cazuza, Renato Russo, Júlio Barroso e Cássia Eller) e outros passam desta faixa etária, mas "travam" devido a óbvia depressão, vazio existencial ou até mesmo são devorados por seus sonhos infinitos (Raul Seixas, Chorão, Cornélius). Serguei completando 80 anos é uma exceção e prova viva que nossos heróis não precisam morrer de overdose para virar lenda, necessitam apenas da atenção de uma mídia inteligente e de público supra fiel. É possível algum dia isso ser uma realidade viável em país de terceiro mundo. Onde ninguém, quando é entrevistado na rua, sabe responder quando iniciou a jovem guarda ou o rock dos anos 1980? O nosso problema é cultural, mas esse assunto fica para depois.
   Nascido em 8 de novembro de 1933, Sérgio Augusto Bustamante, o Serguei, é mais velho que Elvis Presley, Jerry Lee Lewis e Tony Campello, porém consegue ser mais jovem que Chuck Berry e Carlos Gonzaga (este seria o cantor de rock mais velho, caso ainda estivesse na estrada, mas o mesmo ainda faz apresentações "free", sem dispensar, claro, seu apoio a Igreja Protestante). Fazendo um balanço de toda a história, descobre-se logo que Serguei não pertenceu ao time dos pioneiros do rock no Brasil (Betinho e seu Conjunto, Celly Campello, Sérgio Murilo, George Freedman, Ronnie Cord e o próprio Carlos Gonzaga) que surgiu durante o desenrolar da década de 1950 no eixo Rio-SP. Esses nomes Serguei só conhecia ouvindo rádio e outros mais que (ainda) vieram antes dele como Eduardo Araújo, Ed Wilson, Sonia Delfino, Celia Vilela, Cleide Alves e Meire Pavão e bandas como Renato e seus Blue Caps, The Jordans, The Clevers, Luizinho e seus Dinamites, entre outros. Nessa época, Serguei era um jovem tímido e sonhador, que apaixonado por rock and roll desde o surgimento deste, andava com gangues de juventude transviada no circuito juvenil carioca, dançando rockabilly, mas ainda era um ilustre desconhecido dos artistas da "gema", inclusive de Sérgio Murilo, com quem viria firmar sólida amizade em meados dos anos 1960.
   Cansado de ser um espectador do gênero rock and roll, Serguei enfiou na cabeça que deveria cair na estrada sem algemas no cérebro. O emprego de comissário de bordo da PanAir, fato que possibilitou conhecer o mundo moderno antes que seus antecessores, assim, residindo na casa de uma tia nos EUA pôde assistir os primeiros shows da segunda geração do rock, da qual encontraria uma verdadeira sintonia e que era encabeçada pelos The Beatles, The Rolling Stones, The Who & Cia. De volta ao Brasil, Serguei foi pego de surpresa com a jovem guarda estourando em discos e programas de TV. O movimento (para outros modismo) inicialmente seguia a tendência estética mundial sugerida pela British Invasion, mas a cada ano adquiriu uma identidade própria (chegando a incorporar até o pop brega romântico). A jovem guarda tinha como representantes maiores Roberto Carlos, Wanderlea, Erasmo Carlos, Martinha, Wanderlei Cardoso, Jerry Adriani e o já citado Renato e seus Blue Caps. Ainda se destacavam Golden Boys, The Fevers e Os Incríveis. Ronnie Von, segundo ele mesmo e ao contrário do que muitos pensam, nunca pertenceu a turma da jovem guarda. Contudo foi vendido nesta embalagem. Serguei era uma resposta ao rock brasileiro que os malucos mais radicais aguardavam. Esteticamente era uma versão mais atrevida de Roberto Carlos e Ronnie Von, um híbrido apimentado dos dois. Mas nem sempre foi assim. Antes de tudo acontecer, Serguei era um "mod", aquele jovem de terno e gravatinha, mas com o visual sempre reforçado com perucas à la Beatles, que eram vendidas em lojas londrinas. Sim, perucas dos Beatles estavam na moda. Serguei não era careca, porém tinha o cabelo curtinho demais e se fosse ao trabalho completamente cabeludo obviamente estaria no olho da rua. Nos anos 1960, quem fosse "maluco beleza" não parava em nenhum emprego.
  Logo depois de ser comissário de bordo da PanAir, Serguei foi trabalhar na Varig. "Nessa época usava cabelos curtos. Em terra, nos pernoites, colocava calça jeans com jaqueta Lee ou de couro, conforme a temperatura local, e uma peruca escura de Beatles com franjão, os cabelos até os ombros, com lentes azuis e muita disposição para curtir a noite nas discotecas, onde quer que estivesse (...)", recorda Serguei em seu livro autobiográfico "Serguei - O Anjo Maldito". Mas, enfim... Enfrentando o moralismo da juventude brasileira, até meados dos anos 1960, onde usar cabelos longos era uma afronta, ou pior, "coisa de veado". Como ele nunca se envergonhou de ser o que era, na época, nunca teve problemas de assumir sua autêntica identidade sexual. Certa vez desabafou: "Não acho que homossexualismo seja uma coisa errada. Existe homossexualismo e também deturpação do homossexualismo. O homem homossexual não quer ser mulher". (comentário do livro "Serguei - O Anjo Maldito").
   Pouco a pouco, Serguei fez amizades com músicos e produtores que eram apresentados a ele na zona sul do Rio. Agora realmente decidido a virar uma estrela do rock, ganhou o apoio de Ed Lincoln que o viu cantando e o levou para um laboratório musical em um estúdio nunca mencionado. Embora não tivesse grande voz, na visão de muitos DJs da época, Serguei tinha a performance necessária que faltava ao rock brasileiro. "Todo mundo sempre cantava durinho, sem mexer o corpo", disparou anos depois. Visualmente, Serguei era uma versão tupiniquim de Mick Jagger. A diferença é que ele não gostava muito de gravar (isso ele sempre deixou claro em muitas entrevistas de rádio) e o fato de não ter uma banda própria prejudicou demasiadamente a sua discografia a tal ponto que décadas depois cairia no esquecimento do grande público de rock. Só após uma nova geração de iniciados é que a discografia de Serguei passou a ser resgatada. Jovens de vinte e poucos anos, que nem eram nascidos na época de ouro do rock passaram a reverenciá-lo. Pois bem. Para os analfabetos do rock, Serguei continua sendo, como disse antes, "o namorado" de Janis Joplin.
   Sim, essa história aconteceu depois que seus primeiros compactos foram lançados. Se Ed Lincoln não tivesse se interessado pelo visual rockstar de Serguei, ainda sobrava o Rei do Rock Sérgio Murilo (cantor que recebeu esse título em 1962, através de uma votação histórica entre os leitores da Revista do Rock). Oportunamente, Serguei acabou encontrando espaço na gravadora Equipe em 1966. A faixa que puxava seu primeiro compacto se chamava "As Alucinações de Serguei", versão em português de um clássico do rock francês, onde contou com o acompanhamento da banda The Youngsters. O fato de outro cantor com nome de Serguei (cognome de Sérgio Barbosa) ter surgido antes, em 1960, com "Make Believe", nunca atrapalhou-o. Barbosa foi um cantor cover, pouco rocker, situação oposta a de nosso Serguei do final dos anos 1960, que frequentou muitos programas da TV brasileira, do jovem guarda ao programa do Chacrinha, e que regularmente tinha seu rosto estampado nas revistas e até pôster de colecionador na semanal Intervalo. Entretanto, um momento curioso entraria para um dos capítulos da história do rock brasileiro. Em 1967, Serguei ocupou duas páginas da primeira revista de televisão do Brasil, a Intervalo. Foi em razão de um protesto que ele protagonizou na Avenida Rio Branco, no Rio de Janeiro, em cima da estátua do Pequeno Jornaleiro, contra o convencionalismo e dando vivas à liberdade de expressão. Pouco tempo depois, Serguei gravou "Eu Sou Psicodélico". A letra deixava os funcionários do DOPS confusos sobre a mensagem: "Abaixo o colorido bélico, eu sou psicodélico". Que cidadão dentro dos órgãos de repressão conhecia o termo "psicodélico". Era invariavelmente incultos e acreditavam que isso era frescura de bicha louca. Serguei foi liberado do interrogatório.
   Sobre a fase de Janis, da qual os roqueiros analfabetos conhecem mais. Vamos lá. Prestem atenção na sequência da história: Em suas idas e vindas aos Estados Unidos, para passar uma temporada com sua tia, Serguei teve contato com a terceira nata do rock internacional dos anos 1960. Desta vez, artistas da geração hippie. É aí que Janis Joplin entrou em sua vida em 1968. Em seu livro, Serguei conta a história da seguinte maneira: Conheci a Joplin no Festival Parque, um festival de bandas de escola, em Long Island, USA. Descendo a ladeira da Estação Cave, aos meus olhos, vinha um porto-riquenho e uma cigana. Só que o porto-riquenho, na verdade, era Laudir Oliveira, percussionista da banda Chicago. Ele me apresentou à cigana, que não era cigana, era a Janis Joplin. Aí, foi aquela pegação e tal... Ela assistiu o show da minha banda e no final me disse: Você tem muito feeling. Eu quero que você vá para a Califórnia. Vou te ajudar!". E foi assim que, segundo a lenda viva do rock que o envolvimento com a saudosa cantora de blues começou. Nada de namoro. Na real, era uma amizade hippie. Daquelas que ocorriam sempre de maneira casual, conforme outros relatos de artistas brasileiros que tiveram suas histórias com artistas internacionais, tipo "Eu e Mick Jagger", "Eu e B.B. King", "Eu e Kurt Cobain", "Eu e Justin Bieber", e assim por diante.
   O reencontro no Rio de Janeiro em 1970, durante o carnaval, ocorreu meses antes da morte de Janis Joplin. Nota: Esse encontro é sempre recapitulado por Serguei como se fosse em 1971 e na primeira década do século XXI era sempre corrigido por mim quando eu entrava em contato com jornalistas que se interessavam em escrever uma matéria sobre ele. Frente a ignorância cultural de um país mergulhado na alienação do futebol e do samba, Joplin passou por uma pobre mortal, a ponto de ser barrada no baile de carnaval. Só o culto jornalista Nelson Motta tinha consciência do que estavam fazendo com aquela hippie vinda dos Estados Unidos. Ele sabia que se tratava de uma grande cantora com discos lançados, mas para os demais não passava de uma jovem mal vestida e feia. Janis estava hospedada na casa de um fotógrafo, Ricky Ferreira, posteriormente diretor e produtor de cinema. Este por sinal venderia as fotos que tirou dela para a revista Trip. Numa de suas breves escapadas à noite, sozinha, Janis encontrou Serguei na Praia de Copacabana, pelo calçadão na Avenida Atlântica. Em outros relatos, o fotógrafo teria levado Janis para a boate que ficava no Leme, onde Serguei e outros artistas como Darlene Glória e Tony Tornado apresentavam-se como cantores free-lancers. Quando o português, proprietário do estabelecimento concordou que a "hippie" desse uma canja no palco e viu seu brilho e voz potente, mal conseguia se perdoar pelo veto anterior, proibindo-a de cantar. Ele ficou sabendo que se tratava de uma rockstar americana, na verdade, uma cantora de blues elétrico. Só a voz de Janis Joplin ganhou a noite toda. A paparicação dos clientes da boate garantiu a bebida paga por conta da casa. De acordo com o relato de Serguei, a noite acabou veridicamente com um luau erótico do qual fizeram parte Janis e um holandês, do qual nem ele se lembra mais o nome. E esse foi o momento mais marcante para Serguei, até onde se sabe...
  Da virada dos anos 1960 para a década de 1970, Serguei gravou os preciosos compactos produzidos por Nelson Motta e outra meia dúzia nem sempre valorizados pela crítica (ainda pouco) especializada da época. Em destaque: "Ouriço" e "Burro Cor-de-Rosa", onde realmente a psicodelia corria nas veias de Serguei. Essas músicas realmente tinham uma sonoridade e letras bem inspiradas, pertenciam a compositores que funcionavam como heróis anônimos. Em 1975, "De Sol a Sol" foi outro grande rock, bem característico da contracultura que se arrastou até esse período. Coma chegada da discotheque, as bandas foram perdendo os palcos para as pistas de dança lideradas por grupos musicais de cocotões e para um novo tipo de astro, "O D.J'. Essa categoria de entertainers era mais econômica para os donos de clubes. Foi nessa época que bandas de rock (que ainda eram chamadas de "conjuntos") como Made in Brazil, O Terço, Bixo da Seda, Os Novos Baianos, O Som Nosso de Cada Dia, A Barca do Sol, Azymuth e Casa das Máquinas estiveram bem próximas da extinção. Segundo alguns pesquisadores de plantão, somente o Bixo da Seda se desintegrou de vez para retornar somente décadas depois em apresentações especiais. Quase todas bandas, com exceção do Made in Brazil, saíram de cena durante a crise: os Mutantes sofreu diversos tipos de entre e sai do grupo, Rita Lee havia largado o Tutti Frutti e se associado a Roberto de Carvalho. Comercialmente falando além de Rita Lee os únicos artistas solos que sobreviveram a onda da discotheque foram Raul Seixas e Sílvio Brito (nem tanto rock assim). Erasmo Carlos, aposentado da jovem guarda e black soul dos anos 70, só fazia shows revivals e especiais de fim e ano como convidado especial de Roberto Carlos. Uma canção de sucesso de Rita Lee, "Arrombou a Festa II", sentenciava o acomodamento sistemáticos dos artistas da MPB: "(...) E o Sidney Magal rebola mais que o Matogrosso... Cigano de araque fabricado até o pescoço...". Apesar da crítica, Sidney Magal não era fabricado, apenas não era reconhecido pela crítica da época. Outras bandas então emergiram, enquanto o Made in Brazil ia resistindo a todos modismos. Emergiram também Vímana, Patrulha do Espaço, A Cor do Som e 14 BIS. No caso, o Joelho de Porco já existia um período antes, no início dos anos 1970. Nesse nicho todo nem se ouvia mais falar em Serguei. Sem uma banda física ele penou muito, contando somente com apoio de instrumentistas free. A saída era atuar como figura decorativa do rock em diversos programas de auditórios. Num deles, o do Flávio Cavalcanti, Serguei acabou recebendo o Troféu Policarpo de "o pior cantor do ano", ao lado de Gal Costa. Não que fosse tanto assim... Mas os adultos da época eram um tanto conservadores e só davam importância a geração deles (na época, eram saudosistas dos anos 1930 e 1940) onde vozeirões da MPB como Orlando Silva ditavam os hábitos e costumes. Como eles podiam compreender um cantor de rock? Pior ainda: este cantor de rock era cabeludo e fazia o tipo hippie.
      Mesmo com a explosão do rock dos anos 1980, Serguei passou apenas se apresentando em casas menores, bares e festas de motociclistas. Sim, ele foi eleito o padrinho dos Hells Angels. Penou muito, mas foi escolhido para pisar no palco do Rock in Rio II, em 1990. Depois disso, gravou um álbum de clássicos do rock (incrivelmente o melhor momento é justamente quando o decano faz uma releitura etérea de "Summertime", a mais famosa balada de Janis Joplin. Numa reportagem de página inteira da Folha de São Paulo Serguei foi chamado de "vovô do rock". Publicaram até uma linha de tempo entregando a idade de alguns roqueiros do Brasil: Erasmo Carlos, Rita Lee, etc. Isso rendeu muito pano pra manga dentro do universo do rock, pois Serguei foi chamado para dar entrevista na MTV e até no Jô Soares Onze e Meia (época em que o apresentador estava no SBT). O humorista se identificou tanto com a trajetória atípica da lenda viva do rock que virou uma espécie de padrinho chamando-o quase que anualmente para dar uma entrevista em seu programa de TV. Após o efêmero sucesso de mídia indo de carona com o Rock in Rio, Serguei seria escudado por uma boa banda de Limeira, do interior de São Paulo, chamada Boca Roxa Blues Band. A banda lançou um CD acompanhado de uma revista-pôster e compareceu a alguns programas de TV onde a chama do rock ainda não havia se apagado. O vocalista da Boca Roxa Blues Band, conhecido como Paulão Levy, e mais alguns apoiadores, chegaram a trazer o ator Peter Fonda, do filme "Easy Rider", para um encontro de Hells Angels, em São Paulo. Infelizmente a Boca Roxa Blues Band seria extinta, por questões de ordem pessoal de seu fundador. De chamativo, na primeira década de 2000, a lenda viva do rock fez um ensaio nú para a revista TRIP e gravou seu álbum-testamento. Desta vez, com a Pandemonium, uma banda que sabiamente administrou Serguei como nenhuma outra soubera administrar. O velho problema de entrar no estúdio e superar o déficit de atenção foi resolvido.

O LEGADO: NETO DE OSCARITO VIRA FILHO DE SERGUEI



   Durante este ano de 2013, através das redes sociais da internet, especialmente o facebook, o ator Carlos Loffler (dos filmes "Feliz Ano Velho", "Tropclip" e "Dona da História") e também o conhecido neto do comediante Oscarito, emergiu como cantor de rock, convidando eventualmente Serguei para subir aos palcos com ele, normalmente para uma canja. A dupla passou a ser flagrada com frequência em diversos eventos do circuito underground carioca. Egresso do espetáculo "Isto Aqui é Rock'n Roll", Loffler já tinha atuado em outros musicais de teatro (o mais famoso deles foi "Blue Jeans", dirigido por Wolf Maia) e para o cinema daria um bom Serguei. É o que pensa o autor desta matéria que está finalizando o roteiro do longa de ficção "BÍBLIA DO ROCK".
  A possibilidade de Carlos Loffler ser reconhecido como o herdeiro de Serguei pode gerar polêmicas em várias mesas de bar de rockers, mas ele próprio defende a ideia de "ser o filho de Serguei" e já ter obtido a aprovação do remanescente. Marketing pessoal ou não, trata-se de uma grande sacada, num momento em que o rock, já em sua segunda década do século XXI, agoniza e está carente por uma representação autêntica. Nada de Restart, Fresno ou derivados com aval das grandes gravadoras. Loffler está entre os que acreditam que o rock pode recuperar o caráter de rebeldia frente a uma juventude robotizada. "Não se fazem mais roqueiros como antigamente" diria um veterano de um sebo de discos, indignado com a falta de criatividade das bandas e roqueiros atuais. A falta de uma ideologia (como diria Cazuza) e a super valorização de bens fúteis oferecidos pela grande mídia estaria destruindo a filosofia "rock". Nada de novo no ar, exceto a morte da MTV brasileira, desde 1990, o único grande reduto das bandas de rock, afinal de contas, a nação roqueira está cagando para o Altas Horas, da Rede Globo. Claro que cagando em termos, porque afinal de contas, qualquer convitezinho que surge as bandas sempre saem correndo para obter uma vitrine, os seus 15 minutos de fama. De alguma maneira, infelizmente artesanal, o rock sobrevive nos programas de TV e rádio da WEB. É um filão que as grandes emissoras ainda não sacaram direito e por isso estão perdendo o público alvo juvenil. Fora isso, nada de novo no ar. De inédito, o que nós temos mesmo é a presença viva de uma lenda do rock que finalmente atingiu a longevidade e que continua sendo o anfitrião do Museu do Rock, em Saquarema. no litoral do Rio de Janeiro. Serguei é o roqueiro mais velho do Brasil, sim, até que alguém prove o contrário, combinado? É tempo de comemorar. Estar vivo nos dias de hoje já é uma grande vitória, ainda mais para um roqueiro de 80 anos que sabiamente sabe driblar tanto as críticas quanto os elogios. Que Deus tenha piedade dos roqueiros analfabetos. Feliz aniversário, Serguei!!!!




 



ASSISTA:

EU SOU PSICODÉLICO


SERGUEI E BANDA PANDEMONIUM


SERGUEI E RITA LEE NO MESMO PALCO

MÚSICA "HELL'S ANGELS"


SERGUEI E MARCELO NOVA NUMA MESA REDONDA


SERGUEI NO "AGORA É TARDE"


SERGUEI E BANDA MAKINA DU TEMPO NO FESTIVAL DOS 25 ANOS DO SELO BARATOS AFINS


SERGUEI NO PROGRAMA ESTRANHO MUNDO DO ZÉ DO CAIXÃO


ROGÉRIO SKYLAB ENTREVISTA SERGUEI


SERGUEI CANTANDO "OURIÇO"


               

13 comentários:

  1. Grande postagem, Emerson. Valorizou o trabalho de Serguei, comentando sobre sua música e sua trajetória, que continuam tão desconhecidas, não focando no 'caso Joplin' que é o que costumam fazer, e ainda falou sobre Carlos Loffler, outro grande artista. É por causa de pessoas como você, que vão além do superficial, que a chama continua acesa.

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  2. Obrigado, Fabrício. Estamos juntos nessa. Ano que vem retomo as filmagens do longa. Abraço!

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  3. Este comentário foi removido pelo autor.

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  4. DEFALLA abriu pro SERGUEI nos nos 90, em SC, foi inesquecível.
    O cara é rock de verdade, legítimo, sem pose.
    "Eu sou psicodélico" é demais, ele sempre esteve adiante de seu tempo...Long Live Rock'n'Roll!!
    Cheers!!

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  5. De Falla e Serguei formam uma boa artilharia roqueira para derrubar a hipocrisia sonora que anda à mil pelo Brasil.

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  6. Castor Daudt, o grande ponta-de-lança do rock gaúcho dos anos 1980.

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  7. NO ANO DE 2012 TIVE O PRIVILÉGIO DE PRODUZIR 2 SHOWS DE SERGUEI, COMIGO E MEDUSA TRIO, NOS SESC"S SANTOS E PRESIDENTE PRUDENTE, NOS QUAIS ELE PODE EXERCER SEU INCRÍVEL CARISMA JUNTO AS PLATÉIAS ! SERGUEI É SHOOOWWWWW !!

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  8. Que beleza, Percy! Levei Serguei para a capital gaúcha, coisa que ele nunca conseguia concretizar, mas ser prestigiado por grandes nomes como vc, certamente foi um privilégio para ele e alguma foto da sua banda tem que estar no Templo do Rock, em Saquarema. Vamos agilizar esse contato?

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  9. Parabéns Emerson. Legal poder relembrar a carreira do Serguei e ver que as novas gerações vão conhecer mais um pouco do que aconteceu naquela época.
    No final dos anos 60, os Canibais estiveram também muito próximos do Serguei acompanhando suas apresentações em programas de rádios, TVs e em shows pela cidade do Rio de Janeiro. Ficamos amigos naquela época.
    Um abraço.

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  10. Beleza, Aramis. É importante saber que as boas bandas como a sua compreendiam que a proposta estética de Serguei estava na ordem do dia (como diz a expressão que está na boca do povo), pois descobri através de algumas entrevistas que nem todos os nomes da jovem guarda respeitavam ele. Riam das roupas e maquiagem de Serguei por pura ignorância no campo da cultura pop rock. Na realidade, Serguei estava a frente e os que riam estavam atrasados. Não vou citar nomes aqui porque não vem ao caso, até ocorrer a liberação das biografias. De certa forma não vem ao caso, uma vez que minha intenção é contar a história do rock pela primeira vez de forma completa e sem omitir nomes. Um livro que outro já publicado fala apenas sobre um único período. Ou falam de jovem guarda, ou de tropicália, ou vários sobre o rock dos anos 80, mas nunca publicaram uma obra sobre o rock brasileiro do início ao até os dias de hoje, exceto um dicionário chamado ABZ DO ROCK. Enfim, aproveito para parabenizar a discografia e a carreira dos Canibais. Um grande abraço, Aramis!!!!

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  11. Parabéns, arrasou na matéria! Obrigada por dividir conosco tantas informações importantes para nosso Rock brasileiro. Com você temos acesso a grandes informações. Eu conhecia um pouco da trajetória deste grande roqueiro que foi e que é Serguei, e com essa matéria ampliei meus
    conhecimentos. FIco feliz por ter como amigo esse cineasta e escritor fenomenal que é "Emerson Links" . No mais te desejo todo o sucesso do mundo. Beijos!

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  12. Valeu! Obrigado por prestigiar sempre, Dirce!!!

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  13. Realmente concordo com Emerson Links sobre esses analfabetos do rock que vivem criticando o Serguei por desconhecerem sua discografia. Excelente matéria. Vida longa para todos os apoiadores e principalmente Emerson Links, o autor da Bíblia do Rock; Beijo.

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